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quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Duas vidas separadas... (IV)


Há uns meses, no Cá te espero, com umas minis e um pires de tremoços a acompanhar:

- Ó Minetes, isto a vida é do caralho. Hoje estamos cá e amanhã já não estamos...
- É verdade... Ó Tiras, sabes qual é o teu mal? É falta disto... - e dei duas goladas, com convicção.
- Oh... vai-te foder! amanhã bates as botas e o que é que fica? a mossa no colchão... e as molas que lhe fodeste aos saltos em cima dele...
- Dele? - Benzi-me - Arreda pra lá!!!
- Dele... do colchão, Grosso. Um gajo tem de fazer alguma coisa que justifique esta merda toda.
- E as virgens que desflorámos, não contam?
- Putas e conas é fácil um gajo ter, qualquer broche consegue... Sabes, se as Cabindadas e a Selvaginal tivessem vingado, a nossa vida talvez tivesse sido outra coisa.
- Foi a única coisa que conseguimos fazer de jeito, não foi? - Disse eu, com os olhos a lacrimejar, enquanto me chegava mais perto do Rijo.
- Foi, Malho, juntos podíamos ter conquistado o mundo da literatura porno... - Concordou o Rijo, metendo a mão de cima do meu ombro. - Vamos tentar de novo?
- Sigo-te até ao inferno... - As lágrimas escorriam pela minha pele enrugada, a voz tremia.
- Dá-me um abraço, Minetes, foste o melhor que me aconteceu na vida...
- Tu também Rijo, tu também, meu rico amigo... - E abraçámos-nos, perante a estupefacção geral.
- Malho, vamos, temos de pôr mãos à obra!Chico,traz um papel e uma caneta...
- Sim, isso, vamos escrever um livro que fique na memória desta canalha.
- Será uma verdadeira pedrada no charco, meu amigo.
- Sim, escreve aí: "Naquela manhã, Teresa M. acordou molhada de um sonho..."

E assim nasceu uma obra que, aos poucos, vai tomando forma. Uma nova luz brilha no horizonte desta antiga amizade, que promete voos mais altos. A saga continua...

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Duas vidas separadas... (III)

INCURSÕES PORNO-LITERÁRIAS

Eu e o meu amigo Rijo falamos sempre de foda e doutras merdas. Não me lembro é de nada agora. Falamos de mulheres, de futebol…, de mulheres…, de futebol…, de mulheres… quer dizer, da crica é que nós gostamos. Mesmo agora, tanto anos depois (não confudir com ânus, que também os refinfámos), é a mesma coisa. Sentamo-nos, mamamos umas minis e a badalhoca da mesa ao lado começa a ficar toda boa e o meu pirilau a babar-se.


Já na juventude, enquanto esgalhávamos o mastro a olhar para mulheres que passavam, falávamos dessas merdas, fantasias que tínhamos e o caralho. Daí a decidirmos compilar esses estados entesados foi um saltinho. Assim surgiram os nossos primeiros textos, que de mão em mão ajudaram muitas punhetas a serem batidas com mais prazer. Até que a certa altura começámos a trabalhar numa história como deve ser. Assim surgiu o nosso primeiro romance porno, “A Selvaginal”, a que quase imediatamente se seguiu outro, “As Cabindadas”. Críticos de então, na liberal Africa, assim escreveram a propósito deste último, no Voz do Manopuim: “…lido na intimidade do quarto, consegue ter o mesmo efeito do chá a que foi buscar o nome. Um conselho: casais em desagregação, comprem este livro e desfrutem de uma maravilha similar ao sexo tântrico. Não há desinteresse sexual que resista.”

Infelizmente, a guerra e outras merdas que por lá se passaram parecem ter destruído a limitada edição de autor, de apenas sessenta e nove exemplares. Da “Selvaginal” e das “Cabindadas” não há rasto, a não ser nas nossas cabeças, porque fomos broches ao ponto de não guardar uma cópia para nós, tal o medo tínhamos que as evangelistas que andávamos a comer descobrissem aquela cena. Enfim, é do caralho.

Mas o reencontro haveria de pôr em marcha outro sonho...


domingo, 23 de dezembro de 2007

Duas vidas separadas... (II)

Uma das Sanitas que passou pelas minhas mãos

Pois é.. Como o Grosso já deixou transparecer, a nossa história cruza-se em vários caminhos, separando-se noutros. Efectivamente acompanhei-o até Techamuchete onde, enquanto ele trabalhava no saudoso Diabo do Cunene, eu limpava as casas de banho da praceta do Opuwo. Era um trabalho de merda mas eu cuidava de tratar as amarguras e maus cheiros diários com umas boas fodas nocturnas.
"A pissa é como o vinho do Porto", costumava dizer o Malho por entre partilhados sorrisos malandros. De facto, era ali.. Techamuchete, que as nossas cobras cegas ganhavam olhos e jorravam o seu veneno por entre as cada vez menos opacas gretas...
Porém, a guerra separou os nossos destinos...

Duas vidas separadas… (I)

Grosso de Malho, à esquerda, Ramalho Rijo, à direita, na actualidade, em fotografia estilizada


…pelo tempo, dois destinos, duas formas de amar… Cantava o Toy no tema daquela telenovela “Olhos de água”. Uma série em que uma actriz toda grossa (daquelas que só apetece trancar à canzana e aos uivos) conseguia o milagre da multiplicação do grelo: em vez de uma, era duas ao mesmo tempo, boas como a rata de pêlo molhadinho e morno.

Pois, duas vidas separadas. Nasci no Kuvango, Angola, tal como o Ramalho Rijo, o Tó Tiras, como o conhecia em criança. Vivíamos a três casa de distância, fomos amigos desde a mais tenra idade, afogámos o ganso pela primeira vez no mesmo dia, com a mesma mulata Natividade, que lambendo os beiços nos dizia: “Sou mulher de muitos caralhos, até vos aguentava aos dois em cima de mim”. E assim foi. Ah… que grande tarde!...

Uns anos depois, já a vida nos tinha posto muita cona pela frente, e cuzinho também, para não falar das goelas, fui viver para Techamuchete, para aí iniciar a minha actividade no Diabo do Cunene, jornal anarquista clandestino. Mas sempre arranjava tempo para me encontrar com o meu amigo Ramalho Rijo. Foram muitas cavalgadas nocturnas com gretas assanhadas, fodemos centenas, modéstia à parte, mas a idade também ajudava.

Espalhámos a semente muitos anos até que a mobilização para a guerra nos separou. Na fuga apressada para Portugal, perdemos contacto. Até recentemente, quando num jantar de ex-combatentes em Moscavide fui surpreendido por um: “Caralho, ó Minetes!” (minha alcunha de então). Era o meu amigo Rijo…